ENTREVISTA

De Recife para Iowa

Gustavo “Pipoca” Andrade
Gustavo “Pipoca” Andrade
Gustavo “Pipoca” Andrade
Radiologista Intervencionista
Universidade de Iowa

RESUMO

A Revista IGI entrevista um dos mais renomados radiologistas intervencionistas brasileiros que desenvolveu a sua carreira em Pernambuco chefiando vários serviços públicos e privados em Recife. Treinou muitos profissionais na área e participou ativamente da Sociedade Brasileira de Radiologia Intervencionista e Cirurgia Endovascular (Sobrice), chegando à presidência em 2022. Em agosto de 2023, mudou-se para os Estados Unidos para trabalhar como professor associado de radiologia intervencionista na Universidade de Iowa.

GA: Eu tinha uma posição confortável e bem-estabelecida nos âmbitos profissional e pessoal. Porém, várias questões no Brasil me incomodavam demais. Primeiro, a corrupção desenfreada e entremeada em todas as esferas. E, ainda pior, ver que a tendência é de piora progressiva diante de tamanha impunidade. Acordar todos os dias bem cedo, trabalhar honestamente com extrema responsabilidade para receber um baixo salário do serviço público, além de ser obrigado a lidar com inúmeras glosas e negativas dos convênios. É muito desanimador. Tudo isso me fazia muito, muito mal. Não se engane, o capitalismo selvagem está no Brasil, e, para quem quiser discutir isso, fico à disposição.

Trabalhei 20 anos como radiologista intervencionista no Brasil e não consegui enxergar qualquer melhora nos fatores que elenquei. Apesar de bem-estabelecido e “vitorioso”, eu sempre estava reclamando. Não menos importante, o trânsito e a violência eram inaceitáveis. A piora lenta e progressiva faz a população crer que tudo isso é normal e aceitável. Por último, veio o WhatsApp. Inicialmente fornecia meu número de celular para todos os pacientes dos serviços público e privado.

Infelizmente, fui sendo forçado a não mais fazê-lo, e ainda assim a situação com o WhatsApp ficou insuportável. Alguns leitores podem achar que estou exagerando, mas em qualquer país sério não é normal os pacientes terem seu telefone pessoal.

GA: Ter uma vida satisfatória, em que precisasse me preocupar apenas com minhas atribuições como médico. No Brasil, além do nosso trabalho de médico, éramos obrigados a fazer outros papéis, incluindo muita “burrocracia”.

Me fez e me faz muito mal assistir à roubalheira tomar conta do país e atestar que os mais corruptos são os que mais crescem. Então, minhas expectativas eram apenas fazer meu trabalho e cuidar da minha família, em um local no qual o exemplo a ser seguido seja respeito, educação e caráter.

GA: A família já tinha conhecimento do meu estado de indignação e insatisfação com o entorno. Os amigos não muito íntimos se surpreenderam, pois sabiam da minha posição privilegiada e não imaginavam que eu largaria tudo. Os amigos médicos, em grande maioria, apoiaram e externaram querer uma oportunidade semelhante. Minha esposa, grande incentivadora, foi fundamental em todo o processo.

GA: A oportunidade surgiu no início de 2023, em conversa com amigos intervencionistas que trabalhavam nos Estados Unidos. Decidimos abraçar.

Fiz quatro entrevistas on-line, fiz o TOEFL e, no final de março, recebi uma carta oferecendo o trabalho e detalhando as condições de salário, tempo etc. Nunca havíamos ido a Iowa, mas decidimos ir adiante. Nos mudamos em agosto de 2023. Foi tudo muito rápido.

GA: Nas universidades estadunidenses, o currículo e as indicações são fundamentais. As indicações são feitas por meio de cartas de recomendação. Quem está escrevendo a carta deve explicar de onde conhece a pessoa, há quanto tempo e como trabalharam juntos, além de falar sobre o desempenho profissional e pessoal da pessoa indicada. A universidade ajuda na aquisição da licença médica e fornece o visto de trabalho, facilitando sobremaneira o processo. A população da área é de uma educação invejável. É algo que nos faz sentir bem mesmo sendo expatriados

GA: A qualidade da radiologia intervencionista praticada no Brasil não deixa a desejar de forma alguma. Os profissionais são muito preparados e experientes. Mas a qualidade do trabalho depende de vários outros fatores e, em vários deles, a diferença é grande.

Posso citar alguns:

– Fazer o trabalho de médico e não de outros profissionais;

– Ter direitos e deveres definidos e, mais importante, iguais (plantões, salários, horários etc.);

– Trabalhar em apenas um hospital (ou poucos). Trabalhando em muitos hospitais, não há como garantir um cuidado adequado;

– Atuar sem “jeitinhos” ou gambiarras que no Brasil somos comumente obrigados a fazer. Quando houver uma questão judicial, sua boa intenção não prevalecerá.

Gustavo “Pipoca” Andrade

GA: Sim, com mais tranquilidade durante o trabalho, sem outro colega esperando a sala etc. Aumentei o cuidado e evito gambiarras. Se tem o material adequado, faço. Se não tem, adio.

Outra coisa é sermos forçados a economizar no Brasil. Temos que listar os materiais previstos para uso. Qualquer material adicional pode gerar problemas. Infelizmente isso acontece pela suspeição de desonestidade e ganhos secundários. Sabemos que essas práticas existem, mas, para quem trabalha de forma correta, é desanimador.

GA: Na prática diária, não temos possibilidade de fazermos tudo aqui. Porém, o perfil é um pouco diferente e precisei me adaptar um pouco, nada demais.

Em eventuais novas tecnologias, no Brasil temos mais liberdade de testar, inovar.

Para nós, médicos, essa liberdade geralmente é vista positivamente. Porém, imaginando-me como paciente, eu não gostaria de ser o primeiro.

GA: Muito respeitosos e limitados à atividade médica.

GA: Estou bem feliz, trabalho em um excelente centro, estamos montando uma equipe fenomenal, minhas garotas estão bem. Então, sim, alcancei minhas expectativas, embora ainda haja desafios, claro.

GA: Vejo três na linha:

Primeiro, conseguir o green card (a residência permanente).

Segundo, aplicar para professor full nos próximos cinco anos. Aqui, há três níveis de professor: assistente, associado e full.

E, por último, também desejo fazer os steps do United States Medical Licensing Examination (USMLE) para depois fazer a prova de radiologia intervencionista e me tornar board certified aqui.

GA: Honestamente, não. Adoro o Brasil, adoro ver os amigos e a família, mas não penso em retornar para trabalhar. Já houve contato de rede hospitalar, mas longe de me convencer. Claro que, havendo necessidade, retornaremos, mas não é o pensamento atual.

GA: Aos muito jovens que pensam em sair do Brasil, não se inibam. Vão em frente. Há muitas oportunidades com melhores perspectivas.

Aos mais vividos, parabéns pela resiliência. Nós formamos uma grande comunidade brasileira de radiologia intervencionista. Gostaria apenas de ver mais união e menos competição.

A vida profissional não é tudo, também precisamos ser exemplo como ser humano.

GA: Toda escolha tem vantagens e desvantagens, sempre. Se pensam em vir, informem-se, visite serviços; não é impossível.

Meus bisavós, avós e pais diziam: o Brasil é o país do futuro. Nos meus quase 50 anos de vida, vi o futuro andando bem mais rápido que o nosso país. Ou seja, o Brasil será sempre o país do futuro, mas não o alcançará.

Há 40 anos, Cazuza gritava: “Brasil, mostra a tua cara”; “Eu vejo o futuro repetir o passado, eu vejo um museu de grandes novidades”.

Agora, a partir de tudo o que falei, reflita e me diga o que melhorou nesses 40 anos.

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